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Analfabetismo funcional ou total falta de bom senso?

mczanini — qui, 26.06.2008 - 13:27

Talvez por um capricho do Destino, ou quem sabe foi dona Sincronicidade, ou, mais provavelmente, trate-se de uma coisa "normal" e difundida (o que me dá medo), tenho visto um número absurdo de RPGistas usuários de internet, freqüentadores de fóruns e comunidades online, reagirem de maneira absolutamente desproporcional e até mesmo equivocada a certas notícias e mensagens. Ao mesmo tempo, leio que o acesso à informação nunca foi tão fácil como agora, por causa da internet, mas a qualidade média da informação nunca foi tão questionável e a apropriação indevida de idéias alheias chegou a patamares absurdos, também por causa da internet.

A LUDUS está colaborando com um pesquisador da Escola Paulista de Medicina (UNIFESP) que tem uma proposta de trabalho interessantíssima e muito importante para ajudar a desmistificar a prática do RPG e combater as pessoas equivocadas, ou de má-fé mesmo, que tentam reiteradas vezes associar nosso hobby a comportamentos mal-adaptativos e a crimes. Pretendemos ajudá-lo a coletar três mil questionários respondidos por RPGistas de todo o Brasil (a começar pela distribuição de mil questionários durante o XVI EIRPG, com o apoio dos organizadores do evento). Diego Adão, o autor do projeto, elaborou um texto de divulgação que deixa bem claro o objetivo da pesquisa: gerar dados que nos possibilitarão rebater as acusações levianas de que a prática do RPG seria capaz de alterar o comportamento de uma pessoa normal e sadia, levando-a a confundir realidade e fantasia e a cometer crimes.

[Nota: Li quatro ou cinco artigos publicados em revistas científicas indexadas nos anos 1980 e 1990 com os resultados de pesquisas semelhantes realizadas nos Estados Unidos, motivadas também por acusações e teorias infundadas sobre o impacto psicológico de Dungeons&Dragons e Vampiro: a Máscara nos jovens RPGistas. Para resumir, todas elas apontavam a mesma coisa: os RPGistas norte-americanos eram adolescentes e jovens adultos absolutamente normais. Eram um pouco alienados em relação a outras indústrias culturais (não se interessavam tanto pela programação da TV, por exemplo), tinham uma tendência menor à depressão e a cometer delitos, como furtos em lojas, espancamento e date rape.]

Pois bem, alguns RPGistas se manifestaram assim que o texto de divulgação da pesquisa do Diego foi publicado em certos fóruns e algumas comunidades. Em alguns casos, essa manifestação indicou nitidamente que foi feita uma leitura superficial do texto, ou, se leram mesmo com atenção, não conseguiram entender o conteúdo.

E eu penso: Será que a velocidade e o volume da informação na internet têm algo a ver com isso? Será a qualidade no mínimo questionável da educação pública no Brasil a grande ou única responsável? A culpa seria da desestruturação das unidades familiares? Será que as pessoas estão perdendo (ou nunca desenvolveram) o bom senso? Será que, em vez de fazer curso de leitura dinâmica, ganharíamos mais com um curso de interpretação de texto?

Li também o resumo de uma outra pesquisa, dessa vez da UnB, que alertava para o fato de que uma porcentagem considerável da população brasileira era composta de analfabetos funcionais: ou seja, pessoas capazes de juntar uma letra na outra e ler palavras e frases, mas incapazes de compreender de fato o que leram. No entanto, a grande novidade da pesquisa, na época, não era isso. O dado mais relevante era que uma porcentagem considerável da população brasileira era composta de TELEANALFABETOS funcionais: ou seja, pessoas que não entendiam o conteúdo daquilo que viam e ouviam na TV. Não compreendiam as notícias do Jornal Nacional, nem a novela (basta lembrar que pouca gente entendeu o dilema do personagem de Alexandre Borges, apaixonado por um transsexual interpretado por Cláudia Raia, em As filhas da mãe, de Sílvio de Abreu), nem mesmo de propagandas.

E, pelo que ando vendo, parece que essa falta de compreensão fundamental de um texto escrito ou falado também se estende à internet e não poupa ninguém, nem mesmo os RPGistas que repetem sem pensar o bordão elitista e igualmente equivocado de que o RPG é um jogo que faz pensar (e seu corolário: de que o RPGista, é, por default, inteligente e culto).

Meu próximo pensamento é: o que podemos fazer, como sociedade civil, para minorar essa situação? Acho que é uma coisa para a LUDUS CULTURALIS, por exemplo, não perder de vista.

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A culpa de cada um

itiro — seg, 30.06.2008 - 17:03

Maria, esperei um pouco para escrever este comentário para deixar o assunto descansar um pouco e conseguir ter uma opinião um pouco mais definida sobre o assunto.

Tenho a impressão de que uns 75% dos casos como este que te tirou do sério se resolveriam com este procedimento simples: esperar um tempo antes de responder uma mensagem. Infelizmente isto é uma coisa que muito poucas pessoas fazem hoje em dia.

É fácil tentar culpar a qualidade da educação (tanto a escolar quanto a que deveria vir do berço), a velocidade das informações, a correria do dia a dia, etc. Tudo isso são desculpas, mas não eximem ninguém.

Eu acho que a culpa em todos os casos é sempre das pessoas, estamos sendo doutrinados a apontar para o próximo e dizer que a culpa é dele quando na grande maioria das vezes a culpa é nossa mesmo: não lemos direito, repetimos informações sem verificar as fontes, damos opinião baseadas em "pré-conceitos" e ficamos irados com um imbecil qualquer que é a exceção e é tratado como regra porque o copo já estava cheio e aquilo foi a gota que faltava.

Aqui mesmo, meus textos vão normalmente para o site sem revisão, em alguns casos digito diretamente no editor do site, sei que muitos erros gramaticais são cometidos, não dá para começar a falar nos erros de estilo. Neste tipo de ambiente a chance de começar a falar uma coisa e terminar falando outra coisa completamente diferente é grande (coisa que acabou de acontecer com este comentário).

C.Q.D.

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É isso aí, Itiro

Anonymous — ter, 01.07.2008 - 10:41

Itiro, aí eu pergunto, será que dar um tempo e esperar as idéias assentarem antes de responder alguma coisa na internet não seria uma demonstração de BOM SENSO? E obrigado por dizer com frases terminadas em ponto final aquilo que eu só consegui expressar com pontos de interrogação... Abraço,

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Rufos

Anonymous — sex, 27.06.2008 - 09:00

Fiquei curioso para ver os comentários nos fóruns mencionados, porém não encontrei nenhum (nem procurei no orkut pois estou sem acesso a ele por enquanto). Poderia, não necessariamente citando o nome ou site, expor um dos comentários mal-elaborados para que eu possa me situar no "grau de falta de bom-senso"?

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Agora você me pegou...

mczanini — sex, 27.06.2008 - 11:33

Bom, você pode encontrar o texto de divulgação da pesquisa nos links aí ao lado (se é que você já não fez isso), na seção Na Internet: "Estudo do perfil do jogador de RPG".
A manifestação que chamou minha atenção se deu justamente no Orkut, na comunidade "Jogo RPG e não sou assassino". O problema é que eu não estou no Orkut e só vi o comentário porque meu marido me chamou para ler o texto por cima do ombro dele. Lembro que o tom era de alguém indignado com a pesquisa, pois aparentemente o autor entendeu que os pesquisadores "acreditavam" que o RPG tinha de fato alguma associação com crimes. O texto, por exemplo, aconselhava os pesquisadores (na verdade, o autor do post que divulgava a pesquisa)  a "reverem seus conceitos". Eu espero que os freqüentadores da comunidade tenham conseguido explicar o objetivo da pesquisa para esse rapaz.
No fórum FaleRPG, aconteceu algo diferente, que não se pode classificar como falta de compreensão do texto, mas aí você poderá ver por si mesmo. Para mim, esse é o caso já clássico e muito bem documentado pelo grande filósofo do final do século XX, Matt Groening: "Um meteoro quase destruiu nossa querida Springfield. Vamos providenciar para que algo assim nunca mais aconteça. Destruam o observatório astronômico!".
Vendo a coisa em retrospecto, pode parecer exagero meu levantar a bola que levantei por causa de um exemplo apenas. Mas acho que minha vontade repentina de escrever foi algo parecido com a gota que faz o copo transbordar. As discussões pela internet são afligidas por mal-entendidos. Em alguns casos, acho que podemos jogar a culpa nas deficiências inerentes à comunicação escrita (mesmo com a ajuda de emoticons), mas em muitos outros, parece-me realmente que a raiz do problema é uma deficiência na intrepretação de textos.

Cheerio,

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Outro exemplo

mczanini — ter, 01.07.2008 - 10:54

O Jaime me lembrou agora de um outro exemplo. Quando organizamos o IV Simpósio RPG & Educação, divulgamos o evento também em vários fóruns com um texto breve que explicava nossa proposta etc. e tal. Acontece que a frase-tema do simpósio era "RPG: educação, entretenimento ou violência?". Por quê? Porque queríamos colocar em discussão justamente aquilo que muita gente acha que o RPG é (violência), aquilo que o RPG é (entretenimento) e aquilo que ele pode vir a ser (educação, se for transformado em TNI, técnica de narração interativa).

Pois bem, nos comentários da notícia que saiu na RPGonline, um freqüentador disse algo como: "acho isso um absurdo, vou boicotar esse eventozinho por causa dessa acusação de que RPG é violência".

Esse usuário do fórum comentou a notícia sem ler o texto? Ou não o entendeu?

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Empáfia e cisma

Anonymous — seg, 30.06.2008 - 15:53

Sabe MC,
A coisa que realmente mais tem me intrigado em relação ao RPG nos últimos dois anos é essa empáfia que norteia as relações entre os jogadores, tão contraproducente na maior parte dos casos.
Não sei direito porque, mas me lembrei de uma entrevista que assisti com Amos Oz no Roda Viva. Ele dizia que para resolver a situação entre palestinos e israelenses não era necessário amor, ninguém pode ser obrigado ou sequer induzido a amar alguém. O que precisava era de paz. Paz, simplesmente. Entre nós jogadores havia de se ter uma postura semelhante: aprender a conviver com jogadores, estilos e sistemas que não se gosta (e não se conhece) sem partir a priori da cisma e do confronto.
Eu não acho que o caso seja de analfabetismo funcional mas, pelo menos na comunidade do orkut, de cisma que vem antes de qualquer leitura, seja por um sentimento de auto-defesa irrefletida em virtude de possíveis ataques ao jogo, seja pela empáfia, pela disputa de egos que a gente já conhece.
Agora, por outro lado eu confesso que a carta de apresentação do Diego não me foi totalmente esclarecedora, e ficarei contente em poder conversar com ele no EIRPG.
Abraços
Ana

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será?

Jaime Daniel — ter, 01.07.2008 - 12:56

Olá, olá!

Não sei, não! muita gente gosta de se colocar na defesa, dizendo ficar "indignado com os ataques ao RPG" e yadayadayada...

Bom, por outro lado, basta uma camêra de TV apontar para o cidadão que ele fica todo aceso, querendo mostrar como ele conhece o jogo, como ele é O mestre, como sua vida mudou com o jogo, como somente os ultradotados conseguem jogar isso...

OK, se há tanto medo assim quanto aos ataques, por que então isso não se reflete com as câmeras de TV? Porque eu vejo a galera meter o pau na Globo, mas se forem convidados para o Faustâo (Deus, não permita!!!) vão correndo na hora e FANTASIADOS! Mas não é justamente a imprensa, segundo esse pessoal, que mais ataca o RPG?

Acho que o problema com essa pesquisa especificamente é mais embaixo...

Jaime Daniel
http://jaimedanielleandro.blogspot.com/

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Questione, questione, questione...

mczanini — ter, 01.07.2008 - 20:02

Ana, eu adoraria ouvir essa conversa sua com o Diego. Vais ser lindo.

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